O treino do treinador… Treinar as emoções! (2ª Parte)

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Olá, caro leitor!

Antes demais, espero que a primeira parte do artigo “O treino do Treinador… Treinar as Emoções!“, tenha apresentado um conteúdo que permitisse perceber a importância e influência que o contexto emocional da prática do treinador – o treino e a competição – apresentam para a sua própria regulação emocional, bem como para os seus atletas.

A frase que deveremos apresentar como base para perceber bem o contexto emocional que caracteriza o desporto, e por consequência, a necessidade de treino de emoções por parte do treinador é a seguinte: “a influência que um treinador tem sobre a sua equipa nunca é neutra! O treinador nunca equivale a zero! Há sempre um impacto sobre os atletas. Podendo esse impacto ser positivo ou negativo, mas nunca Neutro!”. Esta é sem duvida a frase que envolve todo o paradigma do treino desta habilidade – Regular o treinador para a influencia no contacto com os atletas ser positiva.

Antes demais vamos estruturar o micro ciclo em três momentos distintos mas complementares, onde o treino de regulação emocional deve estar presente:

  • Pré-Competição
  • Durante a Competição
  • Pós- Competição

A questão que se coloca agora é direcionada para os treinadores! Ou seja, Sabemos que a competição gera mudanças, criando sempre um impacto emocional em todos os seus intervenientes. O estado emocional após uma competição, tem sempre tendência a ser diferente dos estados construídos antes do decorrer da mesma. Isto tudo, devido ao seu grau de importância e da orientação motivacional que grande parte das equipas apresentam. A orientação para o resultado, isto é, avaliarmos a prestação da equipa tendo em consideração uma variável que não controlamos na sua totalidade – e como consequência apresentamos um estado emocional dependendo da obtenção, ou não, do resultado… esquecendo algo que é essencial. o desempenho.

Vamos então á questão. No decorrer de um microciclo, tendo em conta uma perspetiva psicológica, quais são as necessidades da equipa para optimizar os seus níveis de rendimento?

  • Altos níveis de energia;
  • Regulação rápida da energia (deve ser positiva);
  • Altos níveis de tolerância á frustração (um dos grandes desafios no decorrer de uma época desportiva);
  • Regulação da ativação cognitiva (Controlar os níveis de frequência cardíaca e regular os pensamentos para a tarefa – Competição).

A habilidade responsável pela eficácia dos pontos anteriores é a atitude!

Destaco apenas o tipo de atitude que os treinadores deverão treinar com os seus atletas.

A atitude desafiadora, que se caracteriza por:

  • Corresponde ao estado ideal do desenvolvimento da atitude, é neste estado que procuramos que os nossos atletas estejam;
  • O atleta estabelece objetivos realistas  mas desafiadores (dando destaque aos objetivos de desempenho… de execução de tarefas e não ao resultado final) ;
  • Gere os erros a partir de uma perspetiva construtiva, transformando-os em ferramentas de treino para o próprio aprender e evoluir;
  • Não tem receio de tomar decisões ou de errar e experiência altos níveis de satisfação com o desporto que pratica;
  • Palavra-chave : DESAFIO!

Esta é sem duvida uma componente que deverá ser trabalhada no decorrer do momento pré-competitivo, no processo de treino, durante a competição ou pós competição. Outra variável que o treinador tem de ter em consideração nos atletas, é o tipo de pensamentos que surgem no decorrer da semana engloba o jogo. Sendo alguns deles irracionais e que prejudicam o próprio treino de regulação emocional.

Ora vejamos que tipo de pensamentos irracionais podem surgir:

  • Obrigação extrema: “Eu tenho de derrotá-lo!” ou “Não posso perder esta partida!”
  • Exagero das Consequências do Jogo: ” Se jogar mal será uma horrível!” ou “E se perder hoje? Serei um fracassado!”
  • Pensamento Extremista: “Preciso de vencer este torneio sem falhas!!” ou “Caso perca, como vou superar isto?”
  • Pensamento absolutista: “Fiz tudo mal!” ou “Este gajo ganha-me sempre!”

Tendo em conta, o desenvolvimento de uma atitude correta, a DESAFIADORA, e um conjunto de pensamentos nos atletas, em que muitos poderão ser irracionais, logo prejudiciais á preparação, torna-se essencial o treinador regular estes acontecimentos, moldando pontos de interrogação – que geram instabilidade – em pontos de exclamação – que promovem estabilidade e uma maior noção de controlo da competição bem como da sua avaliação.

Assim sendo, seguem algumas ferramentas que o treinador emocionalmente regulado deve apresentar: (um treinador emocionalmente regulado tem uma influência positiva nos seus atletas)

  • Gerir a distância com os seus atletas: Aqui temos sempre três abordagens, a simpatia, a antipatia e a empatia. O treinador para gerir eficazmente a distancia deve trabalhar sempre a promoção da empatia, pois esta capacidade permite que o treinador compreenda os pensamentos, sentimentos e ações dos atletas. Sem nunca se esquecer da sua função de líder. As suas características base são o respeito entre treinador atleta e uma comunicação objetiva e fluida.
  • Nível de Ação: Paralisia e Compulsão. Aqui estão duas abordagens que apresentam como consequências uma avaliação tendo em consideração o resultado, deixando o treinador desregulado emocionalmente, o que altera a sua intervenção no treino, afetando o nível de relação-treinador atleta e como consequência o clima motivacional do treino. Paralisia diz respeito a um estado em que o treinador é um mero espetador no treino, sendo incapaz de dar feedback e gerar mudanças comportamentais. A compulsão é o contrario. Com a necessidade de resolver tudo é tão grande que intervém permanentemente e de forma dispersa… sem priorizar. O treinador deve SEMPRE antecipar e dirigir o treino, trabalhando a partir de ações objetivas e dando tempo para que o atleta seja parte ativa do treino. Essa antecipação e direção reduz a ansiedade e incerteza nos atletas.
  • Orientação das Expectativas: A orientação deve ser sempre para o desempenho… para a causa… para os comportamentos. E evitar que a prioridade de avaliação seja a consequência, ou seja, apenas o resultado do conjunto de comportamentos que envolve uma competição.
  • Estilo das atribuições: Compartilhar e responsabilizar tanto nos sucessos como nos fracassos. Se o objetivo é construir atleta com autonomia nos processos de jogo da equipa é essencial perceber o grau de responsabilidade e participação desempenhado pelos mesmos em relação aos resultados obtidos! Atenção, responsabilizar não significa culpar, significa sim um conjunto de associações entre o esforço e o desempenho do atleta na tarefa desportiva.
  • Estado de Controlo: Tentar controlar todos os comportamentos do atleta antes do jogo, fazendo com que ele repita um conjunto de ações sucessivamente e com permanente feedback, não vai ajudar á sua regulação emocional. O trabalho deve ser continuo no decorrer da época, onde o atleta tem um papel definido e a aquisição e consolidação de habilidades fazem-se de uma forma continua, prestando o treinador o suporte necessário ao atleta.
  • Reconhecimento Social: Não depender de fatores externos para trabalhar o sentimento de eficácia ou de confiança da equipa. Não desregular por opiniões de adeptos, imprensa ou familiares. O treinador deve criar um conjunto de ferramentas internas, desde palestras, vídeos, exemplos práticos que permitam os atletas alcançar uma independência desses fatores externos e optar por relevar apenas as ferramentas desenvolvidas pela equipa técnica e colegas de equipa claro.
  • Volume comunicacional: Por vezes vemos no treino e jogo treinadores que emitem feedbacks constantemente, mesmo em contextos onde por vezes existem barreiras que não permitem a comunicação eficaz. O treinador deve sempre saber identificar e respeitas o tempo e as necessidades dos atletas, atuando com perícia e moderação de acordo com o contexto. O foco deve ser sempre a Solução, ao invés do Problema.

Para que todo este trabalho seja efetuado com eficácia por parte do treinador é essencial que controle o seu próprio estado emocional. Por isso vamos identificar os três estados de desregulação emocional mais frequentes em treinadores (e atleta) e fornecer algumas ferramentais gerais para a sua regulação.

Estados de desregulação emocional, comuns em treinadores:

  • Depressão
  • Euforia
  • Raiva

Vamos começar pelos estados depressivos do treinador. Vou á literatura e Serra (2014) diz que depressão é um excesso de pensamentos sobre o passado na mente de um sujeito, enquanto a ansiedade é um excesso de pensamentos sobre o futuro.

Colocando esta citação de forma pratica e associada ao desporto. Caso, após algumas competições o treinador apenas ficar a pensar nos acontecimentos passados de insucesso… “Porque não fizemos como estava no plano”, “não estávamos preparados”, “não jogámos nada!”; “como não marcámos aquele penalti????”.  Este estado revela analise continua de ações passadas, e como consequência, levanta pontos de interrogação sobre o futuro! Como todos os estado emocionais, este também é transitório, sendo essencial treiná-lo.

O que deve fazer o treinador que vivência estado depressivo:

  • Desenvolver compaixão por si próprio;
  • Desenvolver compaixão pelos seus atletas;
  • Desenvolver capacidade de compreender, aceitar e perdoar;
  • Deve treinar o controlo de Pensamentos: Sempre que tiver um pensamento orientado para o passado ou para o futuro, deve substitui-lo por um pensamento presente orientado para a eficácia.

Pensamento TÓXICO (Futuro): “Andamos a jogar mal… estamos tramados no próximo jogo”

SUBSTITUIR POR PENSAMENTO PRESENTE: Indicar como abordar a execução (plano de jogo), com base em experiências positivas anteriores. Associando expressões de estimulo positivo.

Estados de Euforia e Raiva no treinador. Como já referi várias vezes, a cultura orientada para o resultado, onde a avaliação é feita apenas como base na vitória ou derrota, origina a euforia ou raiva, sendo estes, dois estados de desregulação emocional.

Caso surja sucesso repentina a única coisa provocada pela euforia é:

  • Um impedimento de observar as mudanças futuras em perspetiva;
  • Manter um conjunto de estratégias orientadas para o resultado, como tentativa de transpor todos os desafios de uma época;
  • Papeis dos atletas definidos só em função do resultado e não do crescimento da equipa.

Já a raiva, destaca-se quando os resultados que a equipa pretende alcançar não é obtido. Promovendo total frustração no treinador e nos seus atletas.

O que deve fazer o treinador que vivência o estado de euforia ou raiva:

  • Técnicas de relaxamento (Progressivo, Profundo ou Autogéneo) – Falaremos brevemente sobre o tema;
  • A preparação dos momentos pré, durante e pós-competitivo, com base em dados objetivos e não marcadas pelo estado emocional atual (analise da equipa, analise do adversário, definição da estratégia, aplicação dos conteúdos no treino, oferecer total suporte ás questões dos atletas e jogo!);
  • O foco deve estar permanentemente no processo de competição e não apenas no ultimo jogo. Isto dará suporte para uma moderação na analise ao crescimento da equipa e não apenas a uma fatia da competição. Avaliar a competição enquadrada no calendário e nunca aquela competição de forma isolada. Consequência – Moderação na Análise!;
  • Apresentar um conhecimento real das habilidades dos atletas bem como das suas limitações. Estas duas variáveis fazem com que o treinador desenvolva expectativas realistas, favorecendo a autoconfiança e autoestima em si próprio e nos seus atletas.

Considerações Finais: Um artigo de facto mais longo que o habitual, mas teve mesmo de ser, visto a importância e riqueza de conteúdo que envolve o treino das emoções por parte do treinador. Com este artigo pretendi mostrar o impacto que as emoções do treinador apresentam para os seus atletas, sendo por isso essencial a identificação da regulação e desregulação emocional, bem como as suas principais variáveis e ferramentas de treino. Orientação para o Desempenho, Pensamento no Presente; Construção de um Plano Objetivo e concreto; Avaliação do Desempenho através do comportamento e não do resultado, Gerir o Processo de Comunicação com os atletas e o desenvolvimento de compaixão para consigo próprio e para com o atleta são algumas das bases essenciais de treino da emoções para o Treinador.

Caro Leitor,

Até Breve!

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