CF Os Repesenses e o segredo na formação

Em Destaque, Entrevista, Futebol Formação por AdminDeixe um comentário

Ficha Técnica

Nome: Alexandre Brás

Função: Coordenador Técnico do CF Os Repesenses

Conquistas recentes: Campeão Distrital de Viseu nos escalões de sub 10, sub 11, sub 12, e sub 13 entre 2012/2013 a 2015/2016

 


 

O Clube de Futebol “Os Repesenses” conseguiu feito inédito no futebol do distrito de Viseu, tendo colocado sete equipas na fase final dos campeonatos distritais.  Estamos a falar de todos os escalões desde os Sub-10 até aos Sub-19.

 

DSPORT – Alexandre Brás, seguido da formação de bons atletas os bons resultados são um dos objectivos mais importantes, os quais levam certamente a vitórias. Contudo, em algum momento acreditaram alcançar tamanho feito?

Alexandre Brás  Agradeço antes de mais o interesse e convite para expor um pouco o desenvolvimento do CF “Os Repesenses”.

Começando, pelo final da questão, o CFR é, históricamente, um clube associado a vitórias, a desenvolvimento de atletas, a participação em grandes momentos desportivos, e partindo desse pressuposto, qualquer escalão tinha como objectivo e ambição alcançar a respectiva fase final.

Depois, creio que devemos separar, ou relativizar, a importância de ganhar nos diversos escalões, ou seja, não é, nem nunca pode ser imperial ter que vencer nos escalões de base, ou nos escalões sub 10 a sub 13, por exemplo, até porque não é a vitória no campeonato que vai definir se o atleta, ou o colectivo, evoluiu ou não. De outra forma, a partir do escalão de iniciados é importante colocar as diversas equipas nos campeonatos nacionais.

Desta forma, e tendo em conta a qualidade dos nossos atletas e respectivas equipas técnicas, alcançar fases finais acaba por ser natural, permitindo disputar os campeonatos entre os melhores da região.

Acaba por ser uma continuidade do excelente trabalho realizado nos últimos anos, que acaba por engrandecer todos os intervenientes, e nos deve encher de orgulho. 

 

DSPORT – Por detrás uma boa equipa de formação está uma boa equipa de técnica, certamente esta é uma das chaves para os resultados obtidos, correcto?

Alexandre Brás -A escolha das equipas técnicas, é um dos momentos mais importantes da planificação de qualquer época. Primeiro, e antes de me importar com a qualidade e conhecimento de jogo por parte do treinador, tenho que valorizar e procurar outros padrões de competência, como por exemplo, a questão pedagógica e didáctica dentro do jogo. Não nos pode interessar um treinador que, pese embora domine a concepção do jogo, não seja capaz de transmitir esse conhecimento, esses valores da melhor maneira, e portanto, pretendemos um treinador que consiga transformar no atleta uma aquisição de conhecimento sustentável, até porque é o atleta que tem que aceitar o treinador e não o inverso.

Dentro desta ideia, conseguimos ter equipas técnicas que garantem resultados quantitativos e qualitativos.

 

DSPORT – Qual o papel dos pais durante a formação?

Alexandre Brás -Os pais são elementos fundamentais no desenvolvimento da vertente desportiva de qualquer atleta.

Se é importante que acompanhe e esteja presente na sua actividade, também é importante que incuta um comportamento saudável, e de fair-play.

Aliás, do meu ponto de vista, quando um pai fala com o filho acerca do jogo ou treino realizado, nunca deve efectuar perguntas como: “Jogaste?” “Ganhaste?”

Deve sim, questioná-lo se gostou, se se divertiu, se correu tudo bem.

Depois, até porque é um tema que tem sido muito discutido, era urgente começar a desenvolver mecanismos que contrariassem estes sintomas ou comportamentos que prejudicam os atletas jovens, sendo que, não tenho dúvida que parte muito da educação de cada pai conseguir contrariar estes comportamentos desviantes.

No fundo, os pais, que são os maiores confidentes dos seus filhos têm uma quota quase unânime no estado de espírito de cada um, ou seja, se o pai afirmar perante o seu filho que o treinador não presta, o mesmo treinador dificlmente conseguirá provar o contrário. A partir daí, o atleta deixa de seguir o seu treinador, e deixa de se ligar à equipa obrigatóriamente. Consequentemente, deixa de conseguir evoluir no aspecto colectivo, na compreensão do jogo colectivo, e passa a pensar mais em si só.

Nós, treinadores temos de querer cada vez mais a presença dos pais. Prefiro a presença dos pais na bancada, do que vê-los deixar os filhos à porta do campo.

No lado mais dramático, prefiro ver um pai a abraçar o filho na derrota do que a dizer aos amigos que o filho é o melhor jogador da equipa. Ou seja, devemos pretender pais que estejam presentes, e que criem condições para que os seus filhos pratiquem o desporto que quiserem, independentemente de serem muito bons, ou serem limitados.

 

DSPORT – A nível de competição, com vêm o atual estado da formação pela região de Viseu? Que mais pode ser feito para melhorar a formação no distrito?

Alexandre Brás -Bom, este é um tema que merece bastante atenção. Conhecendo bastante bem a realidade, penso que devíamos ponderar o quadro competitivo de todos os escalões da nossa associação distrital.

Ou seja, é do meu ponto de vista, que as denominadas primeiras fases deveriam ser mais curtas, e daí extrair imediatamente as melhores equipas para um outro grupo de forma a que as mesmas efectuassem mais jogos equilibrados e exigentes.

Por outro lado, as equipas com mais dificuldades também não seriam expostas a esse mesmo desequilíbrio e teriam porventura mais tempo para trabalhar situações de jogo que não dominam.

O que resultaria daqui? Maior evolução por parte de todos os atletas de qualquer equipa. É isso que se pretende, independentemente de o objectivo  ser vencer ou não. O objectivo final, relembro, é evoluir.

O que acontece, e falo por experiência própria, é que há alturas da época, em que os objectivos de qualificação para a fase seguinte estão garantidos a seis, ou sete jogos do seu término, e ainda temos de efectuar jogos em que vamos ganhar por dez, ou quinze a zero. De certeza que isto não deve ser bom. Para mim, como treinador que acabou por ganhar um jogo por 15-0 não foi bom de certeza, agora vamos-nos colocar no lugar dos jovens atletas do outro lado e suas equipas técnicas…

Devo também assinalar que existe cada vez menos talento, e que devemos ser nós treinadores a tentar potenciar esse mesmo talento. Como se potencializa, é outra questão, mas do meu ponto de vista, deve-se trabalhar muito mais a vertente criativa e a procura de soluções de forma a aumentar um leque de decisões possíveis, e daí resultar a melhor decisão. Devemos, no treino, criar mais situações para eles (jogadores) resolverem, do que optar por lhes indicar que devem passar, rematar, driblar, fazer coberturas, etc. 

Posso acrescentar, que a equipa que oriento acabou de participar na Ibercup Elite Tournament em Cascais, e garanto que não ficámos atrás de ninguém no que toca a ideia de jogo, no seu comportamento quanto ao adversário independentemente da sua qualidade que era excelente.

O que quero afirmar é que o jovem jogador do distrito de Viseu tem qualidade. Quando, por exemplo, no espaço de três dias, defrontamos uma equipa de Lisboa, uma equipa dinamarquesa, uma equipa sul-americana, e outra inglesa que até acabou por ganhar o evento, os nossos atletas estiveram sempre a disputar o jogo e o resultado, o que significa que temos qualidade, e que temos uma ideia de jogo implementada.

E, portanto, se a questão é sobre a qualidade do jogador viseense, temos que nos orgulhar que trabalhamos bem, independentemente se ganhamos ou não.

Aliás,não foram os campeonatos que ganhei que fizeram de mim melhor treinador, mas sim o facto de conseguir acompanhar a evolução dos atletas que treino.

 

Deixe um comentário

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.