Entrevista a Rui Carvalho – O futuro do Desporto Escolar

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O desporto português encontra-se em alta com vários atletas e clubes campeões a nível internacional. A formação tem crescido e amadurecido em todo o país, contudo a prática desportiva nem sempre foi um dado adquirido nas escolas. Veja os avanços que o Programa de Desporto Escolar trouxe na prática desportiva escolar e quais os seus futuros desafios nesta entrevista a Rui Carvalho, Coordenador Nacional do Desporto Escolar.

Dsport  –  De forma sucinta e geral, pode enunciar quais são os objetivos a que se propõe a Coordenação Nacional no novo Programa de Desporto Escolar 2017-2021?

Rui Carvalho – O Programa do Desporto Escolar 2017-2021(PDE) foi construído em função de benefícios que pretende alcançar e em Projetos específicos com resultados previamente definidos que se pretendem atingir.

O PDE, define as orientações para a realização dos Projetos que contribuem para o cumprimento das recomendações da Organização Mundial de Saúde e da Resolução da Assembleia da República n.º 94/2013 (relativa à promoção do Desporto Escolar e da prática desportiva pelos jovens) e melhorar a literacia física dos alunos.

Dsport  – Quais as principais alterações relativamente ao programa anterior?

Rui Carvalho – O Programa do Desporto Escolar 2017/2021 introduz desenvolvimentos importantes no sentido de alargar significativamente o acesso à oferta desportiva escolar, articulando-a de forma mais efetiva com a disciplina de Educação Física, com a oferta desportiva federada e, também, com as dinâmicas locais de promoção da saúde, da atividade física e do desporto.

Neste novo ciclo quadrienal de gestão do Programa do Desporto Escolar serão promovidos os Clubes de Desporto Escolar com maior capacidade de mobilização da comunidade educativa em torno de atividades diversificadas e alinhadas com o Projeto Educativo da escola.

Serão, ainda, reforçados os quadros competitivos e os mecanismos de monitorização e de supervisão da oferta.

Dsport – Considera que atualmente o Desporto Escolar se pode apresentar como uma alternativa à prática de atividade Física de competição nos clubes? Qual a articulação entre o Desporto Escolar e o Federativo?

Rui Carvalho – A Escola, em função do seu Projeto Educativo, deve assegurar a todos os alunos, na escolaridade obrigatória:

  • O acesso à prática desportiva gratuita, respeitando o princípio de igualdade de oportunidades, o respeito da individualidade e o respeito pela diversidade.

É através dos Projetos do Clube do Desporto Escolar que se garante a todos os alunos o acesso gratuito à prática desportiva. Consegue-se promover a equidade no acesso à prática desportiva porque as suas estruturas em articulação com outros intervenientes disponibilizam os recursos logísticos, materiais e humanos, tornando possível aos alunos representar a sua escola na modalidade que pratica ou assumir outras funções desportivas.

Dsport – De que forma contribui o Desporto Escolar para a identificação e seleção de novos talentos em Portugal? E como é feito esse acompanhamento e valorização?

Rui Carvalho – O Programa do Desporto Escolar (PDE) é o maior projeto plurianual educativo nacional. Praticamente 100% dos Agrupamentos de Escolas e Escolas não Agrupadas, submetem todos anos os seus Projetos do Clube do Desporto Escolar. Estes projetos são implementados:

  • Em complemento com a disciplina de Educação Física;
  • Em articulação com as atividades de âmbito interno,
  • E com responsabilidade de integrar uma oferta desportiva que integre treinos e competições dos grupos-equipa.

Este é o modelo de organização para cumprir a recomendação definida pela Organização Mundial de Saúde de os alunos realizarem 60 minutos diários de esforço físico moderado e vigoroso.

A existência de oferta desportiva tão alargada permite corresponder às expectativas dos alunos. É natural que para alguns alunos o volume de treinos e a intensidade desportiva escolar deixa de corresponder às suas expectativas e o aluno procura no sistema desportivo federado mais treinos e competições mais exigentes.

Dsport – Relativamente aos tempos letivos do Desporto Escolar, para que o nível competitivo seja maior e assim a valorização das competições do Desporto Escolar tenha maior relevância no panorama Desportivo em Portugal, o aumento do número de horas letivas por Grupo Equipa, seria pertinente? Como vê este desafio?

Rui Carvalho – Os créditos letivos existentes, são os recursos disponíveis e é com eles que a estrutura do Desporto Escolar deve organizar o seu plano anual de atividades, dando resposta ao maior número possível de alunos. O atual Programa permite que as escolas possam candidatar-se a créditos letivos suplementares e valorizar o seu Projeto do Clube do Desporto Escolar.

Dsport – Com a aposta em Centros de Formação Desportiva, quais as orientações  e objetivos dos mesmos para os próximos anos?

Rui Carvalho – O Programa do Desporto Escolar é o documento que define as orientações para a realização de vários projetos (Complementares, Competição e Valorização). O conjunto de projetos que integram o PDE visa:

  • Contribuir para a valorização do percurso escolar dos alunos
  • Partilhar princípios, valores e áreas comuns
  • Interagir com outros projetos da DGE e IPDJ que tenham finalidades comuns
  • Associar-se com outros atores educativos e desportivos para valorizar a oferta das escolas.

O Desporto Escolar integra no seu Programa os Projetos de Valorização. Estes existem para dar resposta à necessidade de articulação dos projetos associados ao desempenho desportivo e organizacional do Desporto Escolar e os Projetos Educativos dos Agrupamentos.

Os projetos realizados neste âmbito, são aqueles que tem uma maior abrangência e servem para acrescentar valor aos projetos associados à competição.

Os Centros de Formação Desportiva integram os Projetos de valorização e são uma janela de oportunidade para existirem ações que facilitem a prática de modalidades desportivas de acesso restrito por motivos técnicos e materiais, como por exemplo, as modalidades náuticas.

A concentração de recursos humanos e materiais e o aproveitamento de sinergias de proximidade, resultantes das parcerias com autarquias e o movimento associativo, tornam possível a generalização a todos os alunos da prática de atividades náuticas.

Dsport – As novas ofertas tecnológicas parecem ser um obstáculo à prática desportiva, cada vez há mais jovens a ficarem em casa a ver filmes ou à frente do computador em vez de praticarem exercício físico. Como podemos reverter esta tendência?

Rui Carvalho – A escola é a base fundamental do ensino /aprendizagem da prática desportiva porque abrange e integra todos os alunos. Na escola é possível promover a formação desportiva dos alunos em função dos seus diferentes níveis de maturação.

O Desporto na Escola, existe porque a escola é responsável pela adequação organizativa, dispõe de recursos humanos especializados e mobiliza os alunos, sem modificar ou adulterar as regras que estão associadas a cada modalidade desportiva e lhe dão identidade.

A oferta desportiva das escolas é gratuita e de complemento curricular, permite aos alunos aceder à prática desportiva gratuita, com enquadramento pedagógico sem recorrer à inscrição num clube para praticar uma modalidade desportiva.

O Desporto Escolar, para desempenhar verdadeiramente o seu papel educativo que lhe deve caber, não pode:

  • Assumir qualquer carácter seletivo,
  • Preocupar‐se com a deteção dos mais dotados. Se o fizer porá em causa, de facto, a estruturação das bases da formação do futuro atleta e aquilo que deverá ser a vocação específica da escola.

… e não esquecer que a sua primeira prioridade é contribuir para a melhoria do rendimento escolar e bem-estar dos alunos.

É nesta lógica que o Desporto Escolar tem que vencer os aliciantes do tempo de ecrã e criar expectativas aos alunos de benefícios com a prática desportiva.

Dsport – Podemos utilizar estas tecnologias a nosso favor e promover o desporto escolar?

Rui Carvalho – As novas tecnologias permitem que os alunos acompanhem online as competições da sua escola no desporto escolar, permite que haja uma base de dados nacional com os dados da aptidão física permitindo que os professores possam aferir a condição física dos seus alunos, permite que os Encarregados de Educação acompanhem as atividades desportivas dos seus educandos, …

Dsport – Portugal encontra-se num pico de qualidade a nível de desporto, tendo várias equipas e atletas campeões nas mais diversas modalidades. Como podemos utilizar estes sucessos recentes para incentivar a prática desportiva nos jovens?

Rui Carvalho – Promovendo os atletas que conseguiram compatibilizar a vida escolar com a vida desportiva e trazer os “nosso campeões à escola” mostrando que o sucesso só se consegue com muito trabalho e disciplina e que os alunos para terem sucesso escolar, profissional ou desportivo têm que ter empenho, disciplina e dedicação.

Dsport – Consoante as gerações, os gostos mudam e surgem sempre novas modalidades. Existe neste momento ideias de implementar algumas no leque do desporto escolar?

Rui Carvalho – Quem define a oferta desportiva das escolas, são as escolas. Quando um ano letivo termina as escolas propõe a sua oferta desportiva para o ano letivo seguinte. A escolhas das escolas é feita em alinhamento do seu Projeto Educativo, que por sua vez é construído em função da caraterização e do meio socioeconómico envolvente.

A oferta desportiva é construída pela escolas em parceria com os clubes de proximidade é aprovado pelo Conselho Pedagógico e validado pelo Conselho Geral que tem representado várias estruturas locais.

Dsport – Tendo em conta os campeonatos nacionais de Juvenis e Juniores que se realizaram em Viseu, quais foram os resultados deste grande evento em termos competitivos e qual o envolvimento da cidade e região?

Rui Carvalho – O Campeonato  Nacional Escolar representou o trabalho diário de muitos professores em praticamente todas as escola do país. Esses professores estiveram representados pelos 145 que acompanharam os seus alunos nas 12 modalidades desportivas em competição simultânea.

Estas 12 modalidades desportivas que integram o Campeonato Nacional Escolar, movimentaram ao longo do ano lectivo 3427 equipas, mais de 45.000 alunos neste escalão etário nas competições locais e regionais e por fim na final nacional, aqui em Viseu.

Estivemos na linha de partida de três dias de intensa competição desportiva associadas a causas sociais e à promoção da cidadania. O DE Solidário, a formação de alunos voluntários que prestam apoio à organização deste evento e a consciencialização ambiental que pretende tornar estes Campeonatos Nacionais Escolares mais sustentáveis através da redução de centenas de quilos de plástico,  demonstra como um evento desportivo pode ter várias valências, incluindo a promoção da cidadania activa.

As competições que decorreram em Viseu, enquadram-se na oferta desportiva de nível II e III das escolas. São atividades que implicam treino e competições desportivas regulares, entre escolas, em 36 modalidades desportivas e em 5 escalões etários no género feminino e masculino.

Este é o modelo de organização da oferta desportiva do Desporto Escolar, que permite que milhares de alunos possam diariamente:

  • Praticar gratuitamente a sua modalidade;
  • Representar a sua escola em competições desportivas;
  • Estar mais tempo na escola;
  • Desempenhar outros cargos e funções no desporto;
  • Experimentar modalidades que requerem requisitos técnicos e materiais exigentes.

A associação de Viseu à organização dos Campeonatos Nacionais Escolares, demonstrou que o poder local tem uma particular sensibilidade pelo Desporto Escolar e pelos valores que lhe estão associados.