O trajeto para educar o sonho com Vítor Santos

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“Educar o sonho: ética e envolvimento parental na prática desportiva” é o livro de Vítor Santos que tem prefácios de José Lima (Coordenador do Plano Nacional de Ética Desportiva) e de João Luís Esteves (Doutorado em desporto e ex-jogador profissional de futebol) e proémios de Júlio Garganta (Centro de Investigação, Formação, Inovação e Intervenção em Desporto da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto), de Duarte Gomes (ex-árbitro internacional e atual comentador de arbitragem) e de Rui Miguel Tovar (jornalista e comentador do programa Grandiosa Enciclopédia do Ludopédio da RTP).

 

Apresentado no mês de fevereiro em Viseu o livro tem merecido os maiores elogios por vários setores da sociedade. Dia 29 de março, pelas 21h00 Vítor Santos estará na FNAC Viseu.

Vítor Santos é natural de Viseu. É Licenciado em Comunicação Social e trabalha no Instituto Politécnico de Viseu. Em 2017 recebeu a Menção Honrosa do Prémio Imprensa Regional – Desporto com Ética atribuído pelo Plano Nacional de Ética Desportiva em parceira com o Clube Nacional de Imprensa Desportiva.

 

DSport: Quem é o Vítor Santos?

Vítor Santos (VS): Um viseense que desde sempre foi fascinado pelo desporto e sonhou ser jogador de futebol. Na época não tive quem me alertasse que não chega saber dar uns “toques” (risos). Acompanhei sempre os clubes de Viseu de uma forma apaixonada: Académico, Viseu e Benfica, Lusitano, Repeses, etc. Joguei futebol no BUB e Viseu e Benfica, andebol no Académico de Viseu e voleibol na Associação Académica de Viseu.

Em criança até aos treinos do Académico de Viseu assistia. Era quando estava mais perto dos ídolos de então. Os fins de semana eram passados a jogar e a ver desporto quer fosse no Fontelo, Vildemoínhos, Ranhados ou em qualquer outra cidade ou vila, para assistir a jogos independente das equipas serem ou não da minha simpatia. O jogo para mim sempre foi o mais importante.

Em 1977 (com 10 anos) vi o meu primeiro jogo internacional que vi foi o Benfica-Torpedo de Moscovo para a Taça dos Campeões Europeus. Anos mais tarde assisti no Estádio das Antas a uma dúzia de jogos para a liga dos campeões do F. C. Porto. Devorava os jornais desportivos. Adorava ler as crónicas de grandes jornalistas. Sempre gostei de observar e apreciar o jogo associados à leitura.

O interesse pelo desporto foi esmorecendo e a vida seguiu outros caminhos, outras motivações e a cada ano mais me afastava do desporto.

Em 1999 entrei para o Académico como treinador e na formação permaneci 15 anos com passagens pelo Viseu e Benfica. Com a licenciatura em comunicação social entrei num projeto de um semanário desportivo que foi um época que recordo com saudade. Agora colaboro com a imprensa regional. O desporto continua na minha vida de uma forma menos apaixonada e mais pragmática.

DSport: A prática desportiva e a escrita estão na génese deste livro!

VS: É verdade. A ideia de publicar um livro não me passava pela cabeça. Nunca foi um objetivo. No entanto acaba por ser uma sequência natural do trabalho desenvolvido em todos estes anos e pelo facto de ter sido desafiado a registar de uma forma compacta e organizada quer os textos publicados na imprensa, quer as palestras que tenho realizado nos clubes. Em língua portuguesa não existe ainda muita bibliografia sobre esta temática. O resultado final deixa-me bastante agradado e a aceitação que tem tido é a prova de que esta publicação faz sentido.

 

DSport: Como podemos definir este livro?

VS: É um livro que fala dos comportamentos dos adultos no mundo das crianças e jovens. A sua base é a participação dos pais na prática desportiva dos filhos e leva-nos para uma reflexão provocadora do triângulo do desporto de formação: o atleta, os pais e o clube/treinador. Os comportamentos destes e a influência que têm no crescimento dos seus progenitores. Por isso tenho recebido muitas mensagens no sentido de não reduzir este livro ao Desporto mas sim ao comportamento humano através de um “olhar desportivo”.

Parece-me que acabámos por fazer um livro bastante equilibrado e que não pretende, nem pode ser, de receitas ou lições de moral. São reflexões sobre comportamentos e factos reais que na sua maioria são desviantes, que levam cada vez mais ao abandono precoce do desporto por parte dos jovens, a atos de violência, a frustrações, etc.

O livro contém ainda um caderno pedagógico sobre a participação dos pais na prática desportiva e uma homenagem ao João Manuel.

DSport: Muitas histórias em todos estes anos de treinador da formação?

VS: Imensas. Quem sabe um dia não escrevo essas histórias em colaboração com outros treinadores. Umas caricatas e que hoje nos provocam grandes risadas mas também existem momentos de autêntico terror – fechado em balneários e em que temia pela integridade dos meus atletas. Além da falta de civismo e má educação de algumas pessoas que tinham a responsabilidade de educar. A verdade é que as pessoas se alteram e perdem a noção da figura que fazem.

 

DSport: Falou no plural. Como foi o processo de construção deste livro?

VS: É verdade. Como referi senti a necessidade de contextualizar a participação dos pais no desporto atual. Contactei com personalidades de mérito reconhecido que têm um percurso de intervenção coerente e séria no desporto e que de imediato se disponibilizaram a contribuir com o seu saber. Outros ficaram de fora para tristeza minha. Os temas estavam definidos à partida porque a minha escrita já os abordava: a ética, o envolvimento parental, a arbitragem, as histórias do desporto e surge um livro que tem muitas referências ao que pior temos no desporto em Portugal em contraponto ao valor do desporto, ao ser-se desportista.

 

DSport: O balanço até agora é positivo…?

VS: Sim. Tem sido gratificante receber tantos pedidos e manifestações de agrado. Por mim que seja um contributo, mesmo que simples, para o melhoramento da cultura desportiva em Portugal. Que as pessoas reflitam um pouco.

 

DSport: No prefácio escrito por José Lima podemos ler “Fica um manifesto, de certa forma político, na abordagem da desertificação e a falta de recursos como aspetos limitativos do desenvolvimento desportivo fora dos grandes centros urbanos”. A desertificação é um problema desportivo?

VS: Não. É um problema do país. O desporto é só mais uma atividade. A falta de pessoas, de crianças e jovens tem um impacto enorme na prática desportiva. As associações começam a ter falta de clubes, os clubes falta de atletas, os atletas falta de competição e digamos que tudo se interliga e empobrece o país.

 

“Hoje sei que temos de sair do nosso meio para percebemos o valor do trabalho que fazemos, quem somos.”

 

DSport: Mérito foi o que o PNED reconheceu no seu trabalho. Como foi receber essa distinção?

VS: O trabalho que tenho feito é conhecido aqui na região. Muitos amigos e colegas saudavam-me por tal. Hoje sei que temos de sair do nosso meio para percebemos o valor do trabalho que fazemos, quem somos. O PNED (Plano Nacional de Ética Desportiva) ao reconhecer, nos últimos anos, o meu trabalho no âmbito da ética desportiva deu-me a oportunidade de atravessar as fronteiras locais e de levar o meu trabalho mais longe. A FPF (Federação Portuguesa de Futebol) ao publicar o meu trabalho, na sua revista oficial, sobre a participação dos pais selou a garantia de que estamos perante algo de qualidade, que merece crédito. Não nego que gosto de ver o meu trabalho aprovados por estas instituições. O FDF (futebol de formação) divulgou o meu trabalho de uma forma que não imaginava ser alcançável.

Aliás, é com orgulho que, hoje, tenho o PNED como parceiro para a realização das minhas atividades e que pessoas como José Lima, João Luís Esteves, Júlio Garganta, Duarte Gomes ou Rui M. Tovar, entre outros, estão disponíveis a colaborar comigo e sempre a incentivarem-me a continuar este percurso.

 

DSport:  É por falta de cultura desportiva que o futebol profissional vive estes momentos de crispação?

VS: Não tenhamos a menor dúvida disso. Temos todos a sensação que os clubes não se importam de não jogar e ser campeões no final. O trabalho dos atletas, treinadores e restante staff é sobrevalorizado em relação ao “chico espertismo”. Está enraizado que fora dos estádios/pavilhões ganham-se os jogos. Tudo que seja preciso fazer para isso faz-se. As televisões oferecem o que as pessoas querem ver e por isso não têm culpa do mau gosto desportivo. O que realmente é de lamentar são jornalistas «travestidos». O que não entendo são os maus profissionais em lugares de responsabilidade.

 

DSport: Espetáculos com pouco público são o que existe…

VS: E vai piorar. Construímos estádios com melhores condições mas não cuidamos do espetáculo. As audiências são enormes para o «paleio» e o jogo deixou de ser interessante…

A humanidade é feita de muitas contradições. Ora vejamos: quando estamos a legislar para os animais entrarem em restaurantes estamos ao mesmo tempo a regulamentar a criação de «jaulas» nos estádios para as pessoas! Os adeptos precisam de ir em “caixas de segurança” para assistirem a um espetáculo desportivo!

 

DSport: Alguma situação menos agradável neste processo?

VS: Não. Já tenho experiência suficiente para conhecer o terreno em que me movimento. As expetativas não são exacerbadas. O que estranhei foi alheamento dos clubes e associações, salvo raras exceções, do distrito em relação a esta temática. Não aproveitarem o momento para sensibilizarem, para discutirem estes assuntos da ética e da participação dos pais na formação é sinal que ou está tudo bem ou que é melhor não “mexer” para não piorar. A formação técnica é muito importante mas insuficiente como provam as atitudes que semanalmente assisto no desporto infanto-juvenil. Está tudo muito confortável!

 

DSport: Por esta altura já deve estar a pensar em outros projetos. Pode revelar mais sobre esses?

VS: Não. Agora é apresentar o livro e discutir o seu conteúdo. Tenho convites de todo o país e mesmo do estrangeiro para o fazer. Parece-me ser uma boa oportunidade para refletir e debater muitos dos assuntos que estão retratados no livro. Cada dia que passa a sensação que tenho é que o livro está ainda mais atualizado.

Comentários

  1. Obrigado pela vossa disponibilidade e parabéns pelo percurso que estão a realizar.
    Os maiores sucessos.
    Grande abraço
    vitor santos

    1. Author

      Caro Vítor,

      Com colaboradores com você no desporto português, não temos como falhar.

      Grade abraço da equipa Dsport.

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