Entrevista a Gustavo Carmo engenheiro da equipa HedgeX

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No passado mês de Setembro, Gustavo Carmo e equipa Luso-brasileira HedgeX representaram os respectivos países no F1 in Schools na Malásia. Este torneio visa trazer jovens para o mundo da engenharia e dá-lhes a oportunidade de incorporar num projecto da uma equipa de Formula 1!

 

DSport – Fala-nos um pouco da equipa”HedgeX” e seu projeto.

O projeto F1 in Schools é a maior competição multidisciplinar para alunos do mundo, que  consiste na formação de uma equipa, de 3 a 6 elementos, que se juntam para trabalhar todos juntos. Esta empresa criada envolve o ramo financeiro, o ramo de marketing (uma vez que asseguramos a viabilização da nossa participação com patrocínios, e a divulgação dos mesmos nos nossos meios de media), e a parte técnica envolvendo a construção de um stand da equipa, e claro, do protótipo de Formula 1. Durante os dias de competição a equipa é testada em todas as componentes do seu trabalho, assim como nas corridas entre equipas. A corrida é feita numa pista de 25 metros, onde o carro é propulsionado por uma pequena botija de CO2 que é furada no seu início. A equipa HedgeX surgiu como uma continuação do trabalho de três equipas diferentes. Eu, antigo membro da equipa Vortex, fui convidado a integrar uma equipa com dois membros de outra, que no ano precedente chegou ao pódio como campeão nacional. Não tendo existido competição nacional  este ano, a equipa Inv1ctus (campeões nacionais), pediram-me para fazer parte do que iam ser os meses mais trabalhosos da minha vida. O projeto foi-me introduzido no 10ºano, com ajuda da minha professora de Fisico-Química, Fátima Ferreira, que admiro muito. Foi a professora que me incentivou a mim e aos meus colegas a fazer parte deste projeto. Após passar a primeira eliminatória, competimos a nível regional, tendo ficando em 4ºlugar, com o prémio de engenharia, ficando apurados para a fase nacional, tendo desempenhado a função de engenheiro de design. No meu segundo ano formei uma nova equipa com 5 colegas também da Escola Secundária Alves Martins. Com essa equipa, antingimos o segundo lugar nacional, da qual desempenhei a função de designer gráfico da equipa, tendo sido apurados para a Final Mundial, a decorrer em Austin, Texas, da qual não pudemos fazer parte devido á escassez de fundos disponíveis. Este ano, eu e os meus dois colegas de Vila Nova de Famalicão, Alexandre Pereira e Pedro Fernandes (antigos membros da equipa Inv1ctus), formámos uma equipa colaborativa com três membros de uma equipa brasileira, com vista a expandir o nosso conhecimento da competição enquanto trocávamos ideias com cada etapa do projeto. Deste Julho ate Setembro, foi uma corrida contra o tempo. Em apenas 3 meses conseguimos modelar o carro em software 3D, produzir cada componente, e assegurar a qualidade de cada etapa de manufaturação, sem nunca esquecer o stand, a elaboração de três portefólios diferentes, angariar patrocínios, e fundos para conseguirmos arcar com os custos de viagem, estadia e taxas de participação, assim como os fundos necessários para algumas componentes do projeto. Houve algumas fases que pensávamos que o  projeto não poderia continuar. Em três meses fomos testados ao limite a nível fisico e psicologico, sem tempo para nós mesmos, e muitas noites mal dormidas a pensar em soluções para os problemas decorrentes. No final conseguimos finalmente ter tudo pronto e começar a melhor semana das nossas vidas.

DSport – Como foi a prestação da equipa no “F1 in Schools” na Malásia? 

Muito satisfatória. O nosso objetivo desde o início era competir numa final mundial mas, como costumávamos dizer uns aos outros, não para passear. Quisemos desde início dar o nosso melhor em todas as fases da competição. Na verdade estávamos a espera de muito menos, uma vez que nunca tivemos os fundos para desenvolver mais cada parte do nosso trabalho, e custou-nos muito no final saber que conseguiamos ser melhores. Em termos de pontuação ficámos em 29ºlugar, com o 8º carro mais rápido da competição, num total de 52 equipas de 40 países diferentes. Nos dias de competição mostrámos aos nossos colegas e júris o nosso trabalho todo. Ao longo da nossa aventura conhecemos algumas das melhores mentes por detrás de cada processo de uma equipa de Fórmula 1. Para além de engenheiros, fizémos parte da ínfame pit walk, podendo ver as equipas a fazer os ultimos preparos para o último Grand Prix da Malásia. Sendo de países diferentes, a equipa só se pode conhecer na totalidade no aeroporto do Dubai, onde apanhámos o voo juntos para Kuala Lumpur. Posso dizer que foi bastante gratificante associar uma cara a pessoas que já conheciamos muito bem nos passados meses. Foi nessa viagem que fizemos as preparaçôes finais para a tão esperada Final Mundial.

 

DSport – Quais os critérios de avaliação nesta prova mundial, que atinge mais de 20milhões de estudantes?

Cada país tem o seu próprio sistema de seleção. Apesar de o número de estudantes atingir os 20 milhões, apenas os estudantes que realmente se interessam pelos ideais da competição e que acompanham esses interesses com trabalho árduo é que nos final são pedidos para representar o seu país no mundo. No caso de Portugal essa seleção era feita com a distribuição por um certo número de centros tecnológicos as equipas, com base na localização geográfica das suas escolas. No meu caso, no meu primeiro e segundo ano de competição fui apoiado pelo CTCV, Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro de Coimbra. Cada centro tecnológico fazia uma competição interna e levava as suas melhores equipas para competirem na final nacional. No último ano, não havendo fundos para uma competição em Portugal, o ICC (In-country coordinador) de Portugal decidiu convidar a melhor equipa do ano precedente a participar na Final Mundial na Malásia, da qual eu fui convidado a integrar.

DSport – Existem apoios para jovens ambiciosos  e empreendedores?  

Infelizmente não. Sem querer usar de modo algum esta entrevista como uma crítica, é algo que sempre me afligiu desde o primeiro ano de competição. Todas as pessoas que conheço concordam com o facto de os jovens serem os adultos do futuro e que a sua formação é uma prioridade. No entanto, quando um aluno decide ir mais a frente, fazer mais do que os anos de escolaridade e o futuro curso de universidade ou diretamente para o mercado de trabalho, ninguém o apoia. Muitas vezes durante esta competição eu e os meus colegas fomos negados por empresas, e ás vezes até tratados mal por algumas pessoas considerarem um insulto o nosso pedido de ajuda, em troca de um patrocínio e a respetiva divulgação da sua empresa, com o objetivo de nunca recebermos algo sem dar algo respetivo em troca. Acho uma vergonha chegar a uma Final Mundial ver outras equipas com muitos patrocínios, alguns donos de empresas que até viajaram até á Malásia para apoiarem moralmente a equipa que apoiaram de bom grado, enquanto em Portugal as mentalidades fecham-se a mudança, ao futuro e formação de jovens que um dia estarão a governar o seu país. Recusarem-se a apoiar jovens como eu (e de certo muitos outros em outros registos que se sentem tão ou mais indignados que eu) que um dia irão reverter tudo o que aprender para gerações futuras e assim assegurar um futuro para um país em crise, não só financeiramente mas também de mentalidades. Mas apesar desse aspeto, também tivémos apoio de empresas que alteraram os seus horários em curta hora para que nós pudessemos continuar com a nossa jornada. Mas apesar da minha ambição e dos meus colegas, deixa-me triste saber que podíamos chegar mais longe se algumas pessoas que conheçemos no caminho dessem um pouco de si, para que um dia mais tarde pudessem receber muito em troca. Mas seja qual for o futuro que me espera, esteja em que situação estiver, irei sempre ajudar o próximo ambicioso que um dia me bata á porta a pedir-me ajuda, porque também já tive no lugar dessa pessoa e posso afirmar que sei o que é estar na sua situação.

DSport – Qual o contributo desta participação no teu futuro?

Ao longo destes três anos, desenvolvi capacidades essenciais para qualquer engenheiro que quer ser bem sucedido no mercado de trabalho. Apesar das nossas funções, acabamos sempre por fazer parte de todos os processos diferentes, e dar ideias diversificadas sobre o mesmo tópico. Eu ainda não sei o que quero ser no futuro, apesar de estar a tirar Engenharia Mecânica na Universidade de Aveiro, esse curso tem muito que se lhe diga e pode-me levar a muitos sitios consoante o caminho que eu decida tomar. Com esta participação eu assegurei o que qualquer engenheiro mecânico precisa, saber algumas coisas á cerca de muitos tópicos. Acima de tudo, eu quero um dia entrar no ramo de resolver problemas, sejam eles quais forem, isto porque sei que trabalho muito melhor sob pressão. E tenho a certeza que um dia tudo o que aprendi nesta aventura poderá dar jeito um dia, mais tarde. Nunca foi para mim só mais uma linha do currículo e nunca foi a minha intenção só ganhar, até porque cada vez mais acredito que o que importa não é a meta, mas sim o percurso para lá chegar.

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