Mensagem do treinador Bernardo Fernandes – Eurohohockey Championship II, Turquia

In Hóquei by RedaçãoDeixe um comentário

A nossa prestação no EuroHockey Indoor Championship II em Alanya, Turquia, foi positiva, apesar de termos falhado o nosso principal objectivo da classificação para a divisão A.

Como treinador, compete-me fazer uma avaliação abrangente e equilibrada e, colocando de lado alguma carga emocional causada pela desilusão de termos falhado o principal objetivo da subida de divisão (naqueles fatídicos 20 minutos finais contra a equipa ucraniana), sinto que cumprimos todos os outros objetivos com muita distinção.

Quando o Selecionador, Hugo Gonçalves, me convidou para fazer parte da equipa técnica, informei-o de que, apesar do período ocupado na minha vida pessoal e profissional, gostaria de me flexibilizar para abraçar este projeto e tentar que esta seleção conseguisse uma preparação que se coadunasse não só com o alto nível de competição que iríamos encarar, mas também com o grande nível de atletas que iriam formar este grupo de trabalho. Uma preparação, portanto, o mais profissional possível, no que toca a gerir cargas físicas e de descanso, nutrição, metodologia de treino, sistemas de jogo, etc. Paralelamente, concordámos em que esta poderia ser também uma oportunidade de envolver e inspirar a maior parte dos clubes, jogadores e treinadores que atuam em Portugal, de uma forma diferente e totalmente imparcial.

Resultado da sinergia entre a equipa técnica e a FPH foi possível, através de um grande esforço financeiro, de recursos da FPH e de muitos amigos internacionais do hóquei português, organizar uma preparação low cost mas muito bem delineada, com duas deslocações ao estrangeiro (Holanda e Alemanha no período de pré-estágio antes de viagem para Turquia), perfazendo um total de 13 treinos e 4 jogos de preparação (Holanda, Bélgica, Stuttgart Kickers (clube alemão da 2.ª divisão) e Ludwigsburg (clube alemão da 1.ª divisão)).

Todos os indícios, quer a nível da constância da performance durante estes jogos de treino, quer do feedback dos próprios jogadores sobre jogos e treinos deixaram-nos bastante otimistas, apesar de que, neste tipo de competições, as informações disponíveis sobre os nossos adversários sejam sempre bastante limitadas, ou impossíveis de obter, o que faz com que seja naturalmente difícil aferir quais as expectativas reais para uma competição deste nível.

Depois de chegar e ficar bem instalados no hotel da competição na cidade de Alanya, onde rapidamente percebemos a excelente organização da prova, condições de estadia, de transportes e instalações de jogo, estava na hora de começar a competição.

1.º Jogo: Holanda vs Portugal – Um jogo contra o adversário mais forte do nosso grupo, com o qual já tínhamos feito um jogo de treino no início de dezembro. Porém, a Holanda que se apresentou na prova trouxe de volta cinco jogadores que tinham sido campeões mundiais em 2016, o que nos fez perceber que esta era uma equipa totalmente diferente daquela que tínhamos defrontado e derrotado por 6-3, apenas 4 semanas antes.

Sabíamos que, não só por ser o adversário mais forte, mas também por ser o primeiro jogo, seria sempre importante para a forma como se iria desenvolver o resto da competição. Optámos por jogar num sistema defensivo puramente zonal, o que nos deu uma grande segurança defensiva (sofremos 2 golos de canto e 1 golo bastante azarado), mas ofensivamente não mostrámos pragmatismo e agressividade suficientes. O resultado final foi 3-1 para a Holanda mas, ainda assim, ficámos com sensações bastante positivas e com a certeza de que poderíamos ombrear com as equipas de topo da competição.

2.º Jogo: Portugal vs Turquia – A equipa da casa é um adversário sem muita tradição em competições deste nível, mas que vem crescendo ano após ano, com jogadores habilidosos, bem fisicamente e bastante aguerridos. Começámos bem o jogo e conseguimos criar e gerir o resultado, ainda que na segunda parte tenhamos baixado o nível da nossa performance, principalmente na saída de bola, onde os nossos defesas sentiram algumas dificuldades em contrariar a pressão mais alta dos avançados turcos, e as nossas receções no espaço / tabela não estavam a ser efetivas. Apesar de termos ganhado, de termos conseguido utilizar diferentes estilos de pressão, de termos tido mais dinâmica na saída de jogo, e de termos tido o resultado mais avolumado da competição (8-4), demos alguns sinais de dificuldades em gerir e aproveitar um jogo de maior pressão para o adversário.

3.º Jogo: Portugal vs Ucrânia – Dadas as circunstâncias, este terceiro jogo da fase de grupos tornava-se fundamental para assegurar, ou não, a passagem ao grupo de subida. Começamos o jogo com grande capacidade de gestão, principalmente sem bola, e apesar de chegarmos ao intervalo a vencer , perdemos diversas oportunidades de ataque, ou por algum excesso de individualismo, ou por falta de pragmatismo. A Ucrânia revelou-se uma equipa experiente e, ao contrário de nós, bastante pragmática, que, apesar de estar a perder por 4-1, conseguiu dar a volta e vencer por 5-6. Um desastre, um verdadeiro pesadelo para toda a comitiva.

É claro que, olhando para trás, a responsabilidade de uma situação tão desapontante terá de recair sobre a equipa técnica e os jogadores, pois, se fomos suficientemente competentes na nossa análise e abordagem ao jogo para estar a vencer por 4-1, alguma coisa errada certamente fizemos para o perdermos no final.

Neste jogo, ao contrário dos outros, o facto de o adversário ter trocado o guarda-redes por um jogador de campo não se revelou uma oportunidade para contra-atacar e criar situações de golo, traduziu-se sim num período em que tivemos bastantes dificuldades e em que acabámos por conceder golos e cantos, perdendo mesmo a partida.

É um fado antigo, um padrão que muitas vezes tem afetado prestações das seleções e outros grandes grupos de trabalho, e é com certeza o maior desafio do hóquei português, que pretende estar presente na alta competição.

Porém, como treinador e responsável máximo desta situação, recapitulando o jogo, não mudaria nenhuma decisão na abordagem tática, substituições, etc.. A Ucrânia teve de correr atrás do resultado e nós, com toda a nossa qualidade e experiência, não conseguimos controlar a situação.

4.º Jogo: Portugal vs Itália – Depois da grande desilusão da derrota sofrida frente à Ucrânia, era hora de levantar a cabeça e tentar contrariar o grande desgaste emocional da manhã.
Como é natural, todo esse impacto refletiu-se na nossa performance contra Itália, que era uma equipa bastante inferior à nossa. Estivemos a perder por 2-0, fruto de um contra-ataque e de um canto curto convertidos. Apesar do nosso maior dinamismo e posse de bola, a nossa capacidade de penetração e de criar situações reais de golo foi muito reduzida, muito por mérito da organização e disciplina defensiva dos italianos. Foi com o retirar do guarda-redes que conseguimos forçar mais a entrada na área e, consequentemente, chegar ao empate com um golo marcado de canto no último minuto.

5.º Jogo: Portugal vs Inglaterra – Último jogo, onde o empate nos bastava, ou até mesmo uma derrota poderia servir, para assegurar a manutenção. Aqui, foi clara a intenção de todo o grupo de mostrar a diferença de nível entre uma equipa em desenvolvimento, a Inglesa, e uma excelente equipa de hóquei indoor, a Portuguesa. Com mais ou menos dificuldades, conseguimos vencer por 6-3 e demonstrámos que chegar ao último jogo ainda preocupados com as contas da manutenção foi um castigo muito pesado por uns minutos de desconcentração durante esta competição.
Aos jogadores, tenho muito poucas observações a fazer de teor negativo. Foram um grupo respeitador, colaborador e envolvido com a equipa técnica, com grandes momentos de esforço e de capacidade de jogo. Fomos uma equipa com fairplay (cartões, relativamente poucos e apenas por faltas técnicas) e que deu uma grande imagem de Portugal e do desporto português dentro e fora do campo.

Porém, e porque esta é uma equipa jovem na sua essência, e no desporto de alta competição não deve haver limites e deve sempre existir uma abordagem de autoanálise e de melhoramento, considero que existem alguns aspetos a melhorar, nomeadamente no que toca ao atleticismo e à capacidade emocional exigidos em eventos como este, em que disputámos, em 72 horas, cinco jogos internacionais, e onde 15 minutos de relaxamento ou desconcentração ditaram muita coisa.

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Neste capítulo, e porque apenas 2 dos 12 jogadores convocados jogam em campeonatos de sala mais competitivos, considero que sejam “vítimas”, mas por outro lado também “responsáveis”, por um contexto competitivo nacional que é envelhecido e com exigências bastante diferentes daquelas com que nos deparamos a nível internacional.

Quatro jogos de treino e uma dúzia de treinos concentrados, apesar de terem sido uma grande dádiva da FPH, serão ainda insuficientes para alinhar toda a equipa num registo competitivo, mental e físico ideal para estarmos um ou dois níveis acima e atingir os tão almejados objetivos.

No futuro, entre todos, teremos de pensar em soluções que estimulem um contexto doméstico mais competitivo e uma melhor preparação mental e fisica dos atletas. Gostaria de lançar algumas ideias:

– Protocolos com alguns clubes europeus que possibilitem os maiores talentos de competir na epoca de sala em competições mais fortes.
– Drafts ou sorteios de jogadores de forma a criar mais clubes e uma competição equilibrada
– Jogos de 25/30 minutos
– Critérios de interpretações de regras e disciplina alinhados com competições EHF
– Power play
– Shootouts em caso de empate
– Seleções regionais

Gostaria também de deixar algumas palavras de agradecimento a alguns elementos que formaram esta grande experiência:

– ao nosso capitão Carlitos (Carlos Silva), um grande jogador dentro de campo e um grande exemplo fora dele, um abraço e obrigado por seres um símbolo do hóquei português e um elemento muito importante nas transições generacionais dos últimos anos;

– ao Marcos Ferreira, uma pessoa que cresci a admirar como jogador, pela sua qualidade, dedicação e profissionalismo, obrigado por seres alguém tão responsável e fácil de trabalhar. Espero que a tua frontalidade e honestidade sejam aproveitadas no futuro;

– ao Team Manager, Gonçalo Lima, obrigado pela tua energia, boa disposição e capacidade crítica sempre e em qualquer situação;

– ao selecionador Hugo Gonçalves, uma palavra de agradecimento pela preocupação, apoio e compromisso com a modalidade e com este grupo;

– à equipa médica, na pessoa do Dr. Jorge Pinto de Sousa e do Fisioterapeuta Sérgio Pimenta, obrigado por mais uma colaboração profissional;

– a todos os outros que nos ajudaram, e a todos os que incansavelmente nos apoiaram nesta caminhada, um grande abraço!

Uma palavra também de destaque para o nosso árbitro, Luís Terêncio, que teve uma excelente prestação no torneio, coroada com o desempenho no último jogo entre Holanda e Suécia.

Por último, gostaria de deixar a nota de que, se a própria sustentabilidade da modalidade é questionada a nível internacional, é normal que seja também um enorme desafio na nossa comunidade e no nosso país, porém, nós temos uma tradição muito forte no hóquei indoor, conseguimos sempre gerar talentos, e a nível logístico e de número de atletas talvez seja uma oportunidade e uma possível solução importante para futuro e para o crescimento do hóquei em Portugal.

Saudações hoquistas
Bernardo Fernandes

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